Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) divulgados pelo IBGE no mês passado oferecem um retrato detalhado do acesso à internet no Brasil. O quadro geral é de avanço — a proporção de domicílios com acesso à internet chegou a 87,4% em 2025, contra 74,9% em 2020. Mas os números agregados escondem desigualdades regionais que persistem e, em alguns casos, se aprofundaram.

A região Norte apresenta o menor índice de acesso, com 78,2% dos domicílios conectados. O número é significativamente inferior à média nacional e contrasta com o Sul (94,1%) e o Sudeste (91,3%). Dentro da região Norte, o Amazonas (72,4%) e o Pará (75,1%) puxam o índice para baixo, enquanto Roraima (84,3%) e Amapá (83,7%) se aproximam mais da média nacional.

A qualidade da conexão é outro ponto de diferenciação. No Brasil como um todo, 68% dos domicílios conectados têm acesso à internet por banda larga fixa ou 4G/5G. Mas nas áreas rurais do Norte e Nordeste, essa proporção cai para menos de 40%, com muitos domicílios dependendo de conexões 3G ou mesmo 2G para acessar a internet.

Essa diferença de qualidade tem implicações práticas significativas. Atividades que demandam conexões mais rápidas — videoconferências, streaming de vídeo, uso de aplicativos de saúde e educação — ficam fora do alcance de uma parcela relevante da população. Durante a pandemia, a diferença na qualidade da conexão foi um fator determinante para a desigualdade no acesso ao ensino remoto.

O governo federal tem programas voltados para ampliar a conectividade nas regiões menos atendidas, incluindo o Programa Conecta Brasil e o Programa Internet para Todos. Os dados do IBGE sugerem que esses programas tiveram impacto positivo, mas insuficiente para fechar a brecha regional.

Uma análise mais detalhada dos dados mostra que a renda domiciliar é o fator mais fortemente correlacionado com o acesso à internet de qualidade — mais do que a localização geográfica em si. Domicílios com renda per capita acima de dois salários mínimos têm taxa de acesso à banda larga de 91%, independentemente da região. Abaixo de meio salário mínimo, essa taxa cai para 54% mesmo nas regiões mais desenvolvidas.

Isso sugere que políticas de inclusão digital precisam ser combinadas com políticas de redistribuição de renda para ter impacto duradouro.